segunda-feira, 4 de julho de 2022

Metiê

Lembre-se de minha saudade ao café.
E durante a manhã, não se esqueça dela. 

À tarde, veja se na sombra o sol tem fé.
Ou se o mar é só uma lâmina paralela.

Lá vem o café, a manhã, a tarde e o sol pra mim.
Lá vai a fé, o mar, a lâmina e o gosto de sim.

Lembre-se de se lambuzar com o silêncio.
E durante à noite não beije um acorde frio.


Dedilhado

Se você tiver um ombro
disponível, me empresta?
Prometo olhá-lo só com a
lente lenta que me resta. 

Se você tiver uma espada
cega e crua, me espeta?
Prometo não gritar que
essa máscara não te presta.

Se me chamar de amor ou limbo,
por favor, te exclua.
Prometo não desenhar o sol,
nem vestido branco de lua.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Luz e sombra

Olho para o futuro
Com palavras nuas.
E um lápis escuro
Pavimenta as ruas.

Dos traços não te copiei,
Abraçaram só a luz.
Pelas esquinas parei
Na reta que nos conduz.

Será que estou ali?
Ou é papel em branco?
Sem óculos, eu até li:
"De você, me arranco"!

Mineirices capixabas

Desarme-se? Talvez.
Por você. Ou vocês.
Não te caço. Nem a mim.
Não há não. Nem sim.

Vista-se da boa MPB.
Sei que sim. Sei que vê.
Sua elegância me chama.
E a distância não engana.

Coragem pra nós dois.
Que não fique pra depois,
O que não escolhemos.
E o que é e não vivemos!

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Todo perfume seu

Que esta noite fuja a razão
Que não tenha ponto final
Nem vírgula ou interrogação
Nem frase feita, consoante ou vogal

Que essa noite seja dança e momento
Que não tenha lógica ou preocupação
Nem sombra do que já foi meu pensamento
Nem aquela falsa ideia de ligação

Que essa noite eu possa te satisfazer
Que não tenha passado ou futuro
Nem só pele ou prazer por prazer
Nem luz demais e nem muito escuro

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Instrumental voador

Quase onze horas da manhã. 
Do quinto andar dá pra ver o reflexo. 
O sol beija a água do mar, com o rio, ao lado, num ciúme rasgado. 
Tipo damas da noite que não têm casa da luz vermelha a abraçá-las. 

O tempo passou e estamos na mesma estrada, meu bem. 
Com ou sem água e quengas, o sol sempre brilhará. 
Não só ele, nesses tempos difíceis. 
Marginal, não! Só estou fumando na escuridão o brilho da noite. 

Viva Celso Blues Boy, quase em carne e osso.
Quem foi que falou que acabou o rock´n´roll? 
De amor vazio, estamos fartos. 
Do hino nacional brasileiro, idem. 

Conhece o caminho?
Sabe usar um canivete?
Então, aumenta que isso aí é rock´n´roll.
Porque chorar não vale mais a pena!

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Bençãos de sábados

Hoje casaram de novo!
Dessa vez ao entardecer.
E foi uma festa do povo
Que mereceu vencer.

Teve um toque divino;
Tipo tabela de calcanhar.
Pode ser Deus argentino?
Sim, ai de quem duvidar.

Gol sem jeito ou pressa,
De oportunismo sem par.
Tá lá, é o que interessa. 
Campeões, vão festejar!

Seven, Eight

Fiz agora minha prece.
Um carinho na alma, né?
Aos olhos, o que merece;
Ao corpo, proteína e café.

Misturo arroz e guaraná.
A camisa é minha pele.
Pratico amor sem parar;
Meu tempo é todo Dele.

Não tem calor, nem frio,
Se a gente é o que é.
Vou ali, enfrentar o vento.
Sou força, família e fé!

segunda-feira, 21 de março de 2022

Cinco de março

Hoje é o dia em que a bola bate nas duas traves. 

E entra devagar, marcando posição. 

Tem Fla x Flu, não à toa. 

Oposto é não pingar colírio e ver com óculos escuros a vida maturar. 

Lembrar de Zé Gilson e Dona Zilá na ida para Governador Valadares. 

Envelhecer parece brincadeira de entortar pneus e avistar barrancos tão de perto que é preciso recuar o cotovelo. 

Tudo vem à mente dirigindo numa estrada sonorizada por Raul Seixas e, na sequência, Rita Lee. 


Ovelha negra? 

Só se quiser viajar pelo universo erguendo Jardins da Babilônia. 

Sempre! 

Beijo na bochecha de quem sabe, como ninguém, guardar segredos de olhos verdes a sete portas. 

E ainda afogar todas as chaves em sedentas goladas de Salinas acompanhadas de filé à milanesa. 

Vida que segue, meu velho! 

E bola no círculo central porque vai começar tudo outra vez, tal qual Gonzaguinha prometeu. 

Você nasceu há 10 mil anos atrás! 

Quanto a mim, só estou te imitando. 

De novo.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Evite filas

Se a gente fosse contar
Não seria tudo nunca
Teria gargalhadas e mar
E vários arrepios na nuca

Se a gente fosse chorar
Não era qualquer lágrima
Teria complacente olhar
E texto, linhas e página

Se a gente fosse avião
Não era voo ou pouso
Teria só ar de intuição
E é poltrona, repouso 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Lente de contato

Da janela vejo o mundo
Pequeno recorte de absurdo
Mais um gole de cerveja
Pedindo que alguém me veja

Passa um homem de bigode e chapéu
Com as cicatrizes da vida e perto do céu
Desfila uma mulher de salto alto
E a criança com olhar de anjo e pés no asfalto

Carros roncam o motor
A árvore estanca o calor
O vaivém não tem tradução
É o precipício da evolução


segunda-feira, 7 de março de 2022

Contagem regressiva

Se só me restar esse dia
Vou até o mar, revê-lo
E sem contar que iria
Apenas para admirá-lo

Se só me restar esse dia
Vou construir castelos
Daqueles de fotografia
Onde moram nossos elos

Se só me restar esse dia
Não vou pensar em nada
Quero conchas, a areia
E uma boa gargalhada

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Insanos somos todos nós

Quem diria! Nosso absurdo mundo em horário nobre.
Entretenimento burguês, indignação de pobre.
Aqui, de riqueza no mar e na terra.
Vergonha nacional que nos enterra.

Quem diria! No lugar onde tem dois carnavais!
É também onde morre gente em canaviais.
Aqui, que tem o verão da família.
Aqui, logo aqui, quem diria, quem diria!

Se tá calor, é praia e trio elétrico!
Ao doente, nem original ou genérico.
Quer casa? Cadastra que tem.
Quer ir de ônibus? Por um real vai e vem.

É na terra da festa e fartura
Que brota nossa desventura.
É na confiança do sempre afável
Que se cai e escorre no chão, miserável.

Abriram a cortina, desnudaram nossa veia.
É gente como a gente, amarrada em teia.
Com a mordaça deles, calaram nossa voz.
Insanos, insanos mesmo, somos todos nós. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

A única incerteza

Pouco ou muito,
Todo mundo já sofreu.
E no auge da dor,
A gente acha até que morreu.

Morremos ou vivemos a cada dia,
Em cada despedida ou reencontro?
Reconstruímos tristeza ou alegria?
Somos só um ou pedaço do outro?

Os filhos são nossa extensão.
Prorrogam a vida ou a morte?
E os pais, afinal, quem são:
Teoria científica ou pura sorte?

Ah, temos amigos e irmãos.
Acaso, prêmios ou dádivas?
Temos felicidade e gratidão;
Fé, certezas e dúvidas?

E nesse emaranhado estamos.
E seguimos nos matando.
Rimos e choramos;
Nos iludindo, nos amando.


sábado, 5 de fevereiro de 2022

Café e convites de casamento

Conheço Eduardo e Mônica.

Trabalho com eles.

São música.

São filme.

Às vezes, opostos.

Quase sempre, um só.

Torcem para um time de três cores.

Entre essas cores, o branco da paz.

O branco do arroz.

O branco de Deus, de João de Deus.

São Fluminense, no singular.

A gente também é, no plural, por nascimento.

E vi nascer esse laço.

Vi quieto, observando um olhar aqui, uma admiração ali, uma comemoração de gol acolá.

Soube, de longe, que esses dois jovens e alegres tricolores uniram sorrisos.

E rir é com eles.

Uma metade extremamente bem-humorada. 

A outra, tão debochada quanto a vida.

É bacana ver um casal onde um foca e o outro posa.

E invertem as posições, como Assis e Washington, o casal 20 inesquecível do Flusão.

Como eles, a tabela é pelo alto, com a cabeça.

Que esses pequenos gigantes macaenses sigam rindo da vida e goleando o que não deveria existir.

Que sejam campeões no xadrez que é a convivência a dois.

A praia é o mundo deles.

Com toda madrugada, com todo sol nascente, com toda dose de pecado.

São fãs de refrigerante, cerveja, boa comida e viagens.

Desejo, daqui, café.

Por ser energia e vigor.

E convites de casamento.

Por ter a juvenil essência de quando fizeram - e compartilharam - o deles.

Ah, sim, voltando lá no início do texto, e, talvez, de tudo: "quem um dia irá dizer que não existe razão pras coisas feitas pelo coração?".

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Eternamente menino

Guardo uma certeza: a vida tem toque divino
Há quem só viva; há quem seja sempre menino
Seja força da natureza, ou até mesmo Deus
Existem aqueles que são simplesmente seus

É uma gente de sorriso largo, mesmo triste
De alma ampla, gigante, da maior que existe
Que tem passos lentos, enxerga o futuro ali
Tanta leveza que nunca encontrei onde já li

Quem tem amigo assim sabe o tesouro que é
Sabe que ele vê a vida pelos óculos da fé
É uma crença eterna no tempo, na humanidade
É música, mar, sol, cerveja e simplicidade

sábado, 22 de janeiro de 2022

Maestro São Sebastião

Queria a letra de Renato
O vigor de Humberto
Os olhos de Chico
As tatuagens de Tico

A mineirice de Milton
O piano de Tom
A bossa de João
O skate de Chorão

A voz de Elis
A maquiagem do Kiss
A boemia de Cazuza
Queria, mesmo, ser Elza

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

De joelhos

Na missa do dia primeiro
Não sei se vou rezar
Talvez ter um ano inteiro
Pra ver a quem ajoelhar

É culto importante, eu sei
Marca início, fim e meio
Nessa prece fui e voltei
Acordei, tanto devaneio

Decidi que não vou orar
Quero o altar e o vinho
Quero ser padre, abraçar
Sorver o mundo, moinho


Vinte, vinte e mais dois

Olá: eu sou o ano novo
Pés, mãos e até cabelo
Sou prato, picanha, ovo
Sou mais, menos e elo

Sou porteira, gado e chão
Reta, seta e a contramão
Dia de sol, chuva em vão
A corda frouxa do violão

Sou planeta, piscina, mar
Pés na lua, dor de amar
Sou a vinda e a estadia
Norte, sul e a vida vadia

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Transformação

Eu acho muito bom
Quando a pessoa é
Floral no certo tom
E luz, luminária e fé

Eu acho a vida ouro
Quando a gente quer
Um desafio certeiro
E você, e o que quiser

Eu te vejo olimpíada
Quando não retalha
Flecha em disparada
Musa-mulher medalha