segunda-feira, 13 de julho de 2020

Didi, Floyd, João Pedro, Miguel e Marielle

Didi não se embrenhou na rede, não.

Pediu, pegou e se apossou da bola depois.

Veio quieto, com ela embaixo do braço, até o meio da quadra.

Impassível. Imponente. Príncipe.

Disse para Floyd: "Protege a Marielle, eles são covardes".

Ficou claro no primeiro ataque adversário, em que um atacante raivoso, deputado fortão do PSL, empurrou a goleira com a mão direita, impedindo-a de alcançar a bola. E comemorou o gol rindo, fazendo gesto de arminha.

Didi olhou fixo para João Pedro e Miguel.

Apontou as extremidades da quadra.

Genial, definiu ali a tática de jogo.

Ficou mais recuado, ajudando Floyd a preservar Marielle.

E liberou os garotos.

Foi um massacre.

Três de João Pedro, que só sorriu.

Dois de Miguel, serelepe. Acenou para as câmeras e a gente da TV, que filmavam tudo ali. Expurgou: "Mãe, tô feliz".

Didi, de longe, fez o sexto.

E Marielle, se livrando de um miliciano que a mirava, num chute espetacular de sua área, fechou o 7x1.

Os negros, ah, eles devolveram nossa dignidade. Tinha de ser.

E será.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Sinônimo de amor é amar

Desperdiçar tempo com videogame não foi cogitado.

A companhia da caixinha amadeirada, recheada de lembranças, é que congelou o relógio de pai e filho.

Havia muita história entre fotografias, anotações e outros guardados.

O guri tomou as rédeas da profissão do progenitor e passou a entrevistá-lo.

Com o gabarito de quem rasgou o céu de ponta a ponta, ou de Pernambuco ao Porto, com direito a longas escalas em Campos e no Rio de Janeiro, Marlúcio apenas sorriu ao intuir como seria aquele fim de tarde em quarentena nas terras lusitanas.

Vicente ajeitou o cabelo, posicionou os óculos e estreou como repórter indagando sobre um desbotado ingresso de jogo de futebol.

- Era agosto de 1975. Fui ver meu Santos num antigo estádio, já demolido, contra o Americano. De um lado, craques como Clodoaldo, Cláudio Adão e Edu. Do outro, um time que pela primeira vez jogava o Campeonato Brasileiro. No último minuto a equipe do interior marcou e venceu.

Pareceu relato de uma divina comédia humana.

O menino visualizou a angústia do goleiro santista na hora do gol derradeiro.

Foi ao delírio com a experiência em coisas reais.

- Viver é melhor que sonhar? -, sussurrou. 

- Qualquer sofrimento passa, mas o ter sofrido não -, respondeu o veterano, como se bigode de Belchior tivesse.

Todo sujo de um batom imaginário, não disse que a vitória foi perdida.

- É de batalhas que se vive a vida!

Ao levantar os olhos, avistou o rasante de uma patativa alvinegra pelo quarto.

Um pequeno envelope preso ao bico foi deixado sobre a cama.

A mensagem estava escrita a lápis.

"Deixe tudo ser chão de Giz. Que o grão vizir atravesse o túnel do tempo movido a baioque e flerte com a democracia em Copacabana. Help! É lá onde está nossa lida juventude".

Assinado: Zé Gílson.

terça-feira, 26 de maio de 2020

O diálogo dos talheres

Pequenas tragédias antes das oito
E aquela mania de tentar ser feliz
Na tinta iludida e versátil infinito
Um roteiro escasso do que não fiz

Descarto garfo e faca, prefiro colher
Insensível ao desejo que te assanhe
No tempo vácuo de mar sem maré
Não vi areia ou sorvi champanhe

É só o calor que sussurra na gente
Como um vendedor de versos rubros
Esse impulso de seguir diligente
E sem espinhos dourados nos ombros

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Tropical

Chuvarada
Prestimosa
Madrugada
Melodiosa

Carniceiros
Aflitos
Feiticeiros
Confeitos

Linguagem
Incide
Voltagem
Decide

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Meu nome não é Erasmo

A ideia de fazer a "Noite do Vinil" no Teatro de Bolso partiu de Wellington Cordeiro, ganhou adesão de Romualdo Braga e convenceu Márcio de Aquino.

A empreitada tinha conceito estruturado: a plateia deveria ficar acomodada nos assentos sem qualquer remelexo, de modo a degustar cada nota musical espetada pela agulha do toca-discos.

A playlist enfileirou pertencimentos campistas como a ginga de Eli Miranda, a efervescência dos Avyadores do Brazyl e a violeta bossa trip de Giu de Souza.

Último dinossauro na floresta, coube a Márcio fechar as cortinas do intimista espetáculo de culto à arte local.

Já sem público e com os parceiros de aventura a léguas, se preparava para deixar o oraviano espaço após armazenar seu tesouro afetivo na garupa da bicicleta quando ouviu de Alex: "nós três vamos ter que dormir aqui, ninguém mais pode sair de onde está por causa do vírus".

Atônito, não compreendeu de imediato a referência do bilheteiro também à Layla, economista formada pela Cândido Mendes que, desempregada, vendia doces caseiros no hall. 

Brigadeiros aplacaram a fome do trio.

A moça, um ano mais velha que Alex e crush dele, percebeu que Márcio guardava semelhança com...

- Me chamam de Erasmo, principalmente um conhecido meu metido a poeta.

Revelando-se ex-aluno do Liceu e torcedor fanático do Campos, Alex quis saber um pouco mais sobre o balzaquiano que acabava de impressionar.

- Sou apenas um investigador dos deslizes humanos, surrupiador de pequenos enganos e que conjectura em Tarati Taraguá.

Mal termina a pequena autobiografia, Márcio recebe um zap.

Era Moraes Moreira, pedindo para ele revisar um cordel sobre tentativa de volta da ditadura militar e fake news em tempos de pandemia.

O título sugeria rebeldia e resistência: "Chicletes e prazer".

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Bem

Acorde, intuição
Afine concepção
Emane construção
Irradie harmonização

Revire, imaginação
Saboreie inspiração
Propague reflexão
Partilhe interação

Venere, coração
Armazene disposição
Pulse compreensão
Transborde violão

terça-feira, 21 de abril de 2020

Ato infracional número cinco

Da utopia encastelada e faz-de-conta
Não permita a bíblia de certezas orar
Rasgue viseira cega com mofo na ponta
Descarte pulhas, deixe a lucidez festejar

Já que liberdade não deve ter receita
De pequenas alegrias prefira o cansaço
A palavra pouco dita nossa boca enfeita
E que não nos suba à cabeça o mormaço

Se o relógio marca: atrasados para morrer
Uns dias só atravessam, outros extravasam
Algeme regras e leis tolas, favor não ler
Enquanto uns dias defasam, outros embrasam

terça-feira, 14 de abril de 2020

Diário de bordo

Era uma segunda à tarde quando decidi
Me pautar a tarefa diária de produzir.
Fazer fotos e escrever durante a quarentena,
Numa rotina tanto obrigatória quanto serena.

Regra básica: todo o conteúdo seria inédito,
Feito somente de dentro de casa, de propósito.
Durante seis dias mostraria só as imagens;
Uma vez por semana, versos nas postagens.

Lá estão os filhos, pôr do sol, placa, bonecos,
Bruxa, automóveis e terço, mas sem repetecos.
Revelei saudade do meu time e pedi paciência;
Agora é seguir com esperança e fé na ciência.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Última gota de suor

Na faculdade que me ensina a ser eu
Tem só garoa, fogueira e cansaço teu
Nessa cena dourada, temporal e inversa
A crença cega e a memória é perversa

Parece carta de amor sem destinatário
Com o perfume de fada do mostruário
Carrego até a interrogação da perda
E ainda tento gol de perna esquerda

No silêncio das palavras invisíveis
Repousam nostalgias quase audíveis
Se você for a noite, não quero acordar
E se o dia amanhecer, vem me bronzear

terça-feira, 31 de março de 2020

Falsa mancha de vinho tinto

Uma borboleta pousou no retrovisor
Reservado para o olhar transgressor
Fui lá fora e embalsamei a estrada
Nesses dias sem relógio em disparada

Acabei de perceber você perto de mim
Morena cor de romance vestida de sim
Quando sua sutileza salta e arranha
Nesses dias lentos a vida me estranha

Sei que mereço a façanha do amor
E deixo aberto o livro do frescor
Sou malabarista de concreto e café
Nesses dias em que até o sol deu ré

terça-feira, 24 de março de 2020

Versos vendidos

Começo o dia te deixando sabor da manhã;
Minha xícara com tatuagem de seu batom.
Por baixo da ginga mora dignidade tamanha;
Rima de salto-alto e angústia com moletom.

Continuo meu dia te apreciando me marcar;
Trago cinzeiros, sublimo de tudo um pouco.
Suas pernas de louça embaçam meu olhar;
Traçam-se num descompasso quase rouco.

Termino o dia contemplando seu voo da vez;
E suplicando aos vilões para não ter atalho.
Que não esbarre em reticências ou altivez;
E não sangre a flecha indivisível do trabalho.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Registro de identidade

Você é devoção predileta
Elegante, articulada, correta
Casa e guia
Pouso perfeito, noite e dia

Você é luz de menina
Voz que ilumina
Guarda-roupa que alucina
Charme que azucrina

Você é você e ponto
Final que não conto
É até criança
Esperteza e perseverança

Você é personagem
Paisagem e miragem
É o que é
Agito, paciência e fé

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Escudo

Cadê eu que não estava aí?
Que acordes iam me inibir?
Que suor ia me desmentir?
É aroma do que não senti?

Cadê eu que não estava aí?
Pautando o que não tingi?
Tecendo o que não prometi?
Rindo dos dias que vivi?

Cadê eu que não estava aí?
Lágrimas que sequei e vi?
Açúcar meu que não traduzi?
Olhar cintilante que não li?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Onde dobra o vento

Cantão beira de rio guarda histórias;
Bêbados, grávidas, cadeirantes...
Gente que não cabe nas memórias;
E que sobrevive só em partes.

Perambulam trôpegos os de ranço local;
E passageiros também, de todo tipo.
Há quem olhe indiferente e até igual;
Os de contornos e aqueles que antecipo.

Mau humor percorre o ambiente, sim;
Algum sorriso sincero, até embaraço.
Aparece semblante perto do fim;
E alma nova que alivia o cansaço.

sábado, 11 de agosto de 2018

Som da oração

Se me prestar a orar,
Que o poema seja amar.
O som luta, não trai;
Meu teclado me distrai.

Cozinho,
Sozinho.
Meu vinho,
Meu moinho.

Acho que preciso dormir;
Acho que preciso ir.

Se me armar a lutar,
Que o lema seja remediar.
O som brota, não cai;
Meu alambrado me contrai.

Cozinho,
Sozinho.
Meu vinho,
Meu moinho.

Acho que preciso dormir;
Acho que preciso ir.

Se me parar a pensar,
Que o tema seja aperfeiçoar.
O som encosta, não extrai;
Meu refugado me descontrai.

domingo, 29 de julho de 2018

Fiquei eu

A gente se aproxima da via láctea e do fundo do mar
E percebe que se afastar e odiar é quase igual a amar.
A rouquidão se confunde com largo e sincero sorriso;
O que não tolero, meu bem, é só o que não preciso.

Por cima de nosso recheio sobram sabor e encanto,
E o que não é definitivo, se basta por enquanto.
Quase toda despedida tem um final perto de feliz,
Ficam som e gosto da esperança até do que não se diz.

Ah, o travesso travesseiro acalma sempre todo o dia,
E traz a inquietude também até do que eu não queria.
Pouco adianta, etilicamente, lamentar as certezas,
E emendar os pontos de interrogação das sutilezas.

Vou apreciar o que restou desbotado desse vermelho,
E conferir se ainda reflito só e sozinho no espelho.
Se não me achar, contente que a imagem de mim valeu,
Terá sobrado o que restou; apenas à sombra, fiquei eu.


sábado, 7 de julho de 2018

Amargor

Não, não sei dizer o que sinto:
E se falto com a verdade ou minto.
Se é tão simples assim
E se tem um simples sim.

Não, não é somatório de números;
E nem do que são os acúmulos.
Se é tão emoção ou percussão,
E se tem razão ou ação.

Não, não sei fazer contas;
E nem se faltam meias ou pontas.
Se é tão caída de Neymar
E se difere paixão de amar.

Sim, sim para além de mim;
E para quem distorceu, enfim.
Se é tão Alemanha ou Bélgica
E se Copa aqui ou da Rússia.

Sim, sim para o que faltou;
E nem tampouco para o que ficou.
Se é discurso ufanista do Tite
E se a gente ainda resiste!

Somos nós na Copa

Seis e doze, seis e treze da manhã. O vermelhidão do céu beija a janela do banheiro. Penso ser um sinal de sol, de dia quente. Logo, logo, o relógio marca: faltam menos de nove horas para a Seleção Brasileira entrar em campo. Oh, será contra a Bélgica, o país que mais fala francês, fora a França, no mundo. “Au revoir” significa, na tradução livre, adeus. Contra nossos rivais de bola e irmãos de continente, os franceses passearam logo cedo: 2x0, fácil, nos uruguaios.

Ainda restava a lembrança dos raios solares. Quinze, quatorze minutos antes de a bola rolar, estava eu fígado em prantos e toalha verde a enrolar, cintura abaixo, o que sobrou de mim da noite anterior. Resgatei uma camisa cinza, tida como “a da sexta-feira”, por conter mensagem otimista. Estiquei-a em direção ao mais pessimista dos três filhos. Restou um vácuo de comoção e a esperança no amarelo-e-amarelo do solzinho estampado.

Passos largos, seguimos: eu, a camisa e o filho. Fomos ao mesmo boteco dos dois jogos anteriores. Bacana, emotivo e numerólogo. Ficamos, a princípio, longe da tela. Logo, logo, o dono do estabelecimento nos restaurou à mesa dois, simbólica e ocupada por nós nas duas últimas vitórias por... 2x0! Tinha só um ingrediente novo: um senhor instalado previamente, que se fez nosso parceiro de corpo, copo e alma.

A intervenção de Sidney, proprietário do bar, promoveu o entrelace de operários da comunicação. João Batista, o “Batistinha”, degustava uma Skol em taça de alumínio e relembrava os tempos de Aloísio Parente e Pessanha Filho, entre outros, ao microfone da extinta Rádio Cidade, do folclórico slogan: “No meio é melhor; ligue Rádio Cidade, o som maior...”. Ponderei o tom erótico da vinheta, rebatido com o argumento do centro do dial.

Cabelos brancos e bom de lábia, “Batistinha” me encantou. Papo vai, papo vem... Bélgica 1x0! Gol contra de Fernandinho. Não lamenta e não inventa, rima tão pobre quanto clássica radiofonicamente! Eu, ex-comentarista esportivo, entre outras coisas, digo que Fernandinho e Gabriel estavam mal posicionados. Jesus!!! Não deu tempo para goladas a mais e o loirinho De Bruyne coloca água na nossa loira gelada – a minha e a do (já!) incrédulo “Batistinha”.

Veio o segundo tempo e pedi o mesmo tira-gosto dos jogos passados. Faltou, concluí, sabor à Seleção. Renato Augusto, quem diria, entrou. E “quem diria, parte 2”, fez gol. “Quem diria, parte 3”, de cabeça, na altíssima defesa adversária. Não adiantou Tite, professor de si mesmo, mudar o time. Ficamos a um gol de tentar seguir na Copa. Símbolo Augusto! Demos bandeira, com o amargo sabor do chocolate belga. “Au revoir”, despediu-se o sábio “Batistinha”!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Não tem preço

Vou pagar meus pecados de ré,
Para não ser cobrado pela fé.
Se a moeda anda na frente,
Retroajo no passo seguinte.

Mesmo no drible, na contramão,
Peço a Deus uma gota de perdão.
Oro e clamo pelos vendilhões,
Que alugam os próprios culhões.

Sei que sabem bem o que fazem;
Desprezam, enriquecem e maldizem.
Não desejo que finquem na cruz;
Mediocridade não se reproduz.









segunda-feira, 5 de março de 2018

Azul da alma

Goyta dos gols da Formosa e da Saldanha
De Tonico, de Amarildo e de Lukinha
Da matemática e da filosofia
Do bom humor e da ironia

Goyta de títulos, de troféus e vencedor
Da mulher, do homem, do torcedor
Da criança e do aposentado
Do doutor e do descamisado

Goyta da vida, da história e do amor
Do grito alto, do abraço e do louvor
Do arco e flecha, de reis e plebeus
Goyta cor do céu, Goyta de Deus