quinta-feira, 4 de junho de 2026

Arnica e salompas


_ Troca os pneus de trás pra frente. E bota os novos atrás. O que ficar melhor dos que sobraram vira o estepe. Pode ser?

_ Pode, sim. O senhor é cliente. Esteve aqui, deixa eu ver...

_ Em fevereiro. 

_ Isso.

_ Pode ser hj?

_ Vai demorar um pouco.

_ Tranquilo. 

Em fevereiro cheguei numa situação péssima na Della Via Pneus, Avenida 24 de Outubro, Campos dos Goytacazes. 

O pneu dianteiro, lado do motorista, havia partido em 10 pedaços na BR-101. 

A rodovia que me parte em 10 pedaços toda quarta e sexta, quando vou e volto de Macaé. 

Os retornos, no finalzinho do ano passado e neste 2026 são acompanhados de um "Boa Viagem" especial, pouco mais de 1,6m.

Espero receber a bênção e devolvo o carinho antes de virar a chave.

Ontem, ela começou a ter dificuldades em virar a chave do próprio carro.

Uma certa dor no pé direito. 

Logo ele, o da aceleração. 

O da velocidade, o do fogo na partida.

Esse jogo do asfalto que nos conduz, nos distancia e nos aproxima. 

Era ele, o pé direito.

O peito e arredores.

Cogitou-se arnica, que todas as dores anestesia. 

Chegou salompas e seu adesivo anestésico. 

A noite foi a noite dos justos, velozes e anestesiados, visto que foi fresca na essência e amorteceu.

Hoje o dia amanheceu melhor, com o pé indolor no pedal da direita. 

A natureza chorou com uma baleia morta à beira-mar.

Mas a vida requer trabalho, dores, amores e desamores. 

A vida é até morte.

É livro. 

Poesia e crônica. 

Suor e travesseiro. 

Experiência e travessura.

Pode ser até pneu trocado.

De trás pra frente. 

É o que espero.

Agora.

Literalmente. 

E vamos voar com o pé no chão.