terça-feira, 1 de abril de 2025

Dias infinitos

Sou marujo pousado em você
Com a temperatura do querer
Na enxurrada de delicadezas
Decalco coleção de certezas 

Foi vertigem quando eu te vi
A gente se vê, se ouve e se ri
Somos a isca e o anzol a sós
Um engarrafamento entre nós 

Os objetos viram reticências
Não há limites ou distâncias
Com suas curvas na estrada
A vida fica até envidraçada


terça-feira, 18 de março de 2025

Os maiores insucessos

Vou te contar as histórias que criei pra nós e que nunca vivi.
E pavimentar um chão que não pisei, de onde sempre corri.
Vou falar só mais essa vez que do teu sorriso, muitas vezes eu ri.
E da cama que não era minha nem sua, eu nunca esqueci.

Vou te mostrar seus maiores insucessos que nunca escrevi.
E beijar muito a manhã que te bronzeia e que eu não curti.
Vou te falar de verdades fugazes, das frases que sempre menti.
E ter o cheiro doce e bom do teu perfume que eu nunca senti.

Vou te dizer que o vinho foi suave e que em teu peito profundo dormi.
Agora vou me esfarelar todo em acordes, te dizer que já desisti.
E saborear a cerveja das cervejas, aquela rara que eu nunca bebi.
Talvez a gente se veja numa nuvem ou num dia de sol bem aí dentro de ti.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Pra uma bela

Tem gente que nasce sorrindo
E é feliz, mesmo sofrendo
É o tipo de pessoa que vê na dor, acalento
A vida é que precisa dela a todo momento

Tem gente que nasce gol na gaveta
Lá no ângulo, aquela bola perfeita
Tem na comemoração o que nos ensinar
E mostra que música no salão é pra bailar

Tem gente que só nasce e não finda quando vai
Fica aqui, e da nossa memória não sai
A voz finca, o sorriso ilumina
E deixa aprendizado que não termina

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Pra compreender

Veio com a pressa, mas veio devagar.
Como quem vai conquistando o lugar.
Me conta da sua poça e do seu pomar.
E de sua roupa, de como é seu andar.

Traz sua voz e seu jeito de encantar.
Tô aqui de bermuda, sem me arrumar.
Cabelo grande; o seu é só de amarrar?
Vou só escrever, você gosta de falar?

Vem aqui, vai, mas vem sem acelerar.
Pisa na embreagem; pensa em frear?
Caminha na areia e pula no meu mar.
Não tenha receio, querida, de tentar.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Pois é

A vida é
Mané
Pelé
E José

A vida é
Cabaré
Pontapé
E Igarapé

A vida é
Café
Filé
E Cafuné

A vida é


E Maré

A vida é
Acarajé
Banzé
E Olé


quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Eu não pude ir

Hoje não foi aquela noite
À distância, quase açoite
Tangi nosso mundo todo
Pus óculos, meu engodo

O alarme piscou, coitado
À sua luz e meu método
Vi claro o tom vermelho
E parti do último espelho

Você me quis desse jeito
Que me inquieta o peito
Chamou pra me permitir
E eu, perdão, não pude ir


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

30 dias

Sabe quando a gente lê um texto e pensa em alguém?

E acorda pensando que aquilo nunca existiu?

Sabe quando a vida é da cor que a vida tem?

Sabe quando a gente vê o que ninguém viu?


Sabe quando o dia podia ser madrugada?

Sabe quando o brilho dos olhos é a luz da lua?

Sabe o que é praia em manhã ensolarada?

E quando minha boca encosta na sua?


Sabe quando toda estação é primavera?

E ouvir música tem som de amor?

Imagina o tempo sem relógio, quem dera!

Imagina não sentir frio ou calor?


Sabe quando pouco tempo é eternidade?

E teu cheiro perfuma a natureza?

Sabe quando te contemplar é felicidade?

Quando o entorno é painel da beleza?


Se eu disser que sei, posso acordar.

Então me deixa dormir.

Meu sonho não vai acabar.

Me faz feliz ver você sorrir.


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Eh, leitor!

Eu gosto de ler você
Mesmo sem ter porquê
Há páginas pra te escrever
Com dedicatórias de prazer

Eu gosto de ler você
Na estante do querer
Grifar a frase que não lê
Virar a folha e prescrever

Eu gosto de ler você
Sou analfabeto que não crê
Um livro aberto e até buquê
Assinado: um leitor que te vê


terça-feira, 10 de setembro de 2024

Código de barras

Acho que sou sua companhia.
Só essa noite? Não sei se eu iria.
Falamos muito, pouco de solidão.
Alguém nos deixou na rua, bem na contramão. 

Eu não te vi agora, mas você vive.
Aplausos pra esse em que estive.
É o palco da nossa vida, da sua estrada.
Você quer saída ou entrega entrada?

Ah, meu bem, vou pro horizonte.
Ler, tomar cachaça, subir de ré o monte.

Isso tudo é porque ouvi um rock.
E tinha guitarra e cerveja, e ok.
Não vi você, querida imaginária.
Só a lâmpada, sem a amiga luminária. 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Três doses

Quando a gente faz trinta
A vida diz: tem pincel e tinta
É um aviso de como se fazer sorrir
Parece um alento, em preto e branco, do existir

Quando a gente faz trinta
A vida ainda não é clara, não imita
É um aviso do que não mentir
Parece um crédito próprio desse porvir

Quando a gente faz trinta
A vida, essa eterna amiga, é infinita
É um aviso da alma, do ir e vir
Parece um meio-fio do que a gente vai sentir


terça-feira, 27 de agosto de 2024

Dias de Mariana

O relógio girou rápido feito uma pestana.
E com os ponteiros da velocidade insana.
Bem intenso mesmo, mas não me engana.
Você é  pura força da natureza, desencana.

O tempo não é todo dia, nem é toda semana.
Se você vier, não me venha muito sacana.
Dê atenção e palco pra essa palavra leviana.
Peço pouco: cuidado e carinho bem à paisana.

Meu amor por ti, ah, você sabe: é nítido, emana!
Num filme lindo, a gente é até uma cabana.
Te protejo com sangue, suor, silêncio e gana.
Estou aqui, dez e meia da noite, Mariana!


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Banco, uber e cuidador

Alvinho, pode me passar um dinheiro?
De preferência é um Pix, só no amor!
Vou adiantar aqui um lance maneiro.
Te agradeço por me fazer esse favor.

Alvinho, pode me levar bem logo ali?
É de boa pra você, super rapidinho.
Quando acabar te passo um Zap aí...
Vem depois me pegar, é tranquilinho.

Alvinho, quero ir casa de vovó Vera.
Vou ficar no computador e desenhar.
Papei. Não era pra deixar nada, era?
Vou ali no quarto de "Mimão" brincar.


Quer saber?

Estou me perguntando aqui por você.
A gente provou salgado e até o doce.
Eu sei que foi amor muito bem feito.
O dia seguinte é que nem sei direito.

Vou te guardar ao lado e comigo aqui.
E se tiver em dúvida, vem só em mim.
Eu sou da cama, você é o meu lençol.
E beije muito a bela isca desse anzol. 

A gente junto é a minha pura alegria.
Vem cá, para ser aquela pornografia.
Sem essa de lance ou compromisso.
Eu fico e você fica bem aqui, só isso.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Tudo que há

Se eu sonhar com alguém
De fios totalmente brancos
E me achar relógio e refém
Você me vê entre os flancos?

Se eu for fotografia, meu bem
De imagens fixas e descoloridas
Você me confessa e me detém?
Vê em mim aeroporto de vindas?

E se eu for só a sua sexta-feira?
Aquela, querida, depois do trabalho...
Será que posso achar que me queira?
Ou é, do nada, um impreciso atalho?

terça-feira, 30 de julho de 2024

Papo olímpico com Dona Neuza

 -  Vó, viu a foto do Medina?

-  Vi, estava sobre as águas. Quase um Moisés.

-  Vó, Moisés não estendeu o cajado e separou o Mar Vermelho?

-  Medina pairou a prancha, não te serve?

-  É, vó, só Jesus na causa!

-  E Jesus tem causas muito próprias. 

-  Fale mais sobre isso, vó...

-  Jesus amaria a Madonna. E ainda ia usar peruca ruiva da Lady Gaga no show de Copacabana.

-  Vó, é verdade esse bilhete?

-  Claro, você nunca leu a bíblia?

-  Mas vó...

-  Tá me achando a Dercy Gonçalves? Eu não sou anjo!

-  Vó, já pintaram uns demônios por aqui... 

-  Tudo Judas! Não leu a bíblia mesmo, né?

-  Vó, até li...

-   Leu Gênesis, até a página dois, como a grande maioria. Tomou a vacina? Sabe de Apocalipse?

-  Ah, vó... e se a gente fosse um filme do fim dos tempos?

-  Deadpool. Sem Wolverine. Nada de costeletas. 

-  Não curte barba, vó?

-  Uma penugem do Elvis, só. 

-  Fã do rebolado dele?

-  Prefiro Sidney Magal. 

-  Nada dos ingleses?

-  A língua do Jagger, os óculos do Elton, a voz de Mercury e o cabelo do Lennon.

-  E as letras do McCartney, claro...

-  Erro... texto é o do Renato Russo. 

-  Vó, ele é brasileiro...

-  Tempo Perdido essa discussão. 

-  Ah...

-  Um Faroeste Caboclo em Angra dos Reis. Legião é melhor que Beatles. Vocês viveram!

-  Vó, falando em música, curte Belo e Diogo Nogueira agora que você tá pagodeando aí em outro patamar?

-  Queria, nos tempos atuais, ser Gracyanne ou Paola, queridinho...

-  Vó, elas são... digamos assim, "musas fitness".

-  E você acha que eu tomava conhaque de alcatrão São João da Barra, como se não houvesse amanhã em Dr.Mattos, quando conheci Celso?

-  Ele era tipo José Inocêncio?

-  Praticamente. Um Renascer diário. 

-  Vó, não tinha novela...

-  Mas tinha Chaplin e Mazzaropi. Menos caricato. 

-  Do que hoje em dia?

-  Claro... 

-  Por que, vó?

-  Me imagina no Tinder?

-   Claro que não!

-  Dando um Match no seu avô, partindo pro Insta e parando no Zap?

-  Vó, vó...

-  A gente era, como Marina Lima escreveu um tempão depois, "Solidão com vista pro mar". 

-  O que isso quer dizer?

-  Que a gente coloria todos os dias com o sabor das manhãs.

-  Vó, isso é poesia.

-  A gente chamava de rádio. Um ouvia o outro. 

-  Era doce?

-  Um manjar dos Deuses. Um colírio para os olhos.

-  Mas, vó, cá pra nós, dava pra driblar o sistema?

-  A gente era estrela solitária, era o Garrincha, a bola e o gol.

-  Vibrava, vó?

-  Tipo Caetano e Bethânia em turnê. 

-  Ah, vó, que surpresa... curte os filhos de Dona Canô...

-  Aprenda sobre Jesus e sobre Medina.

-  Como assim?

-  Imagina o surfista, naquela foto feita por um francês, abismando o mundo... 

-  Pra variar, não entendi a metáfora...

-  Então, Jesus foi a lente e a imagem. O mar e o céu. 

-  Jesus era um cara descolado?

-  O maior de todos. Viveu e ensinou a diversidade. 

-  Parando pra pensar...

-  Olha a foto do Medina de novo. Pensa na minha costura. E em mim.  

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Foz

Você pode estar no gelo
Distância que aproxima
Uma viagem, até um elo
É poesia, gruda feito ímã

Pode ser rio afora, e Foz
Foto, pensamento ou voz
Está aqui, perto de mim
Fala nada, mas diz sim

Posso ser até um amigo
Um ombro, um abrigo
E você vem na saudade
Te espero com vontade 

terça-feira, 16 de julho de 2024

80 vezes Chico

Eu podia ser um gênio.
Desses com esmeraldas nos olhos.
Que não têm voz potente, mas são trovão.
E trovadores da vida, essa brincadeira desmedida que nos foi concedida.

Eu podia ter nascido carioca.
Com uma discreta e elegante malandragem que encantam.
Mas eu não canto.
Chico, dizem, também não.

Eu podia estar empatado com Chico.
Podia ter tido filhas, mas só tive filhos.
Como esse aí da foto.
Tocando violão de mão solta.
E dedilhando a leveza da vida do jeito dele.

Eu podia ter um disco de Chico.
Mas nunca tive vinil.
Nessa roda gigante do tempo me sobrou só um CD.
De coletâneas.
E assim vou vendo a banda passar.

Eu podia ter o talento de meu querido amigo Paulo Renato Porto.
Ele, sim, escreveu uma crônica poética pra Chico.
Eu li, reli e curti.
Foi um pequeno grande momento.

O máximo permitido por mim mesmo se deu há bastante tempo: Chico está num altar.
Num texto que meu coração ditou.
E pus no papel.
E isso nem tem 80 anos!

terça-feira, 9 de julho de 2024

Ninguém apostava

Clóvis vestia a oito.

E desfilava.

A origem germânica do nome contrastava com a pele negra.

Mas ele superava qualquer preconceito. 

E bailava.

Sim, Clóvis era um bailarino da bola.

Anônimo.

Invisível. 

Até que...

Na noite de 19 de março, do longínquo 1986, se fez brilhar.

Naquele dia os holofotes eram para o badalado Fluminense.

Eram!

Porque Clóvis mudou o rumo da luz.

A chamou pra si de forma leve, carinhosa. 

Como os que muito amam.

E essa relação íntima ele teve com a bola.

Ela era cheia de tricolores e tricolices.

Tricolices, termo diferente, é só pra rimar.

Rimar com tolices de um grande time, super campeão, emperrado.

Amordaçado. 

Empacado por Clóvis, o gênio de uma noite mágica. 

Ele ditou o ritmo. 

Cadenciou o samba.

E sambou, bailarino, a nota que inventou.

Deu dó num Fluminense de ré.

Foi mi, foi fá, foi o sol reluzente de um lá dia mágico em si.

Regeu uma orquestra afinada por Sena.

Sim, Sena, não o piloto, mas o guia dos gols.

Fez o primeiro, já veterano. 

Antes, jovenzinho nascido na terra do conhaque, deixou São João da Barra pra trajar uniformes do Palmeiras e do Bahia.

Jogou até no Atlético de Madrid.

Mas domou o touro, mesmo, foi junto com Clóvis, autor de um golaço de cobertura. 

O ponta Leandro fez os outros dois do inacreditável 4x0.

Naquele 19 de março, em que uma improvável zebra deixou o maioral do Rio de joelhos. 

O Globo Esporte registrou. E relembrou (olha o vídeo aí, no final do texto). 

De lá pra cá a luz apagou.

O azul desbotou.

De Clóvis não se teve mais notícia. 

Leandro sumiu.

Sena vive no interior. 

E o Goytacaz sucumbiu. 

Chegou à quarta divisão estadual. 

Quase parou.

Quase, porque a torcida, firme e guerreira, destituiu a diretoria. 

E assumiu as rédeas de um clube que já deixou o atual campeão da Libertadores de quatro. 

O "Azul da Rua do Gás" está longe de repetir tal façanha. 

Milagre, agora, é sobreviver. 

Mas que ninguém duvide de um clube que, um dia, deu show com Clóvis, Sena e Leandro. 

Porque foi bonito.

Iluminado.

Poético, até. 

E a gente não duvida que o futebol é poesia.

Aposte nisso.

 

Te levo comigo pra Portela

Meu santo está de sentinela
Bem cuidando da sua capela
Tem feijão na nossa panela
E amor com a minha donzela

Se no mar só tem caravela
Me afogo nos braços dela
De manhã eu abro a janela
E (a)visto com muita cautela

Da roupa sou botão e fivela
Eu faço gol até de trivela
Com você a vida é mais bela
Te levo comigo pra Portela


segunda-feira, 17 de junho de 2024

Vencer, vencer

Numa tribo vibrante e vencedora, havia um suposto líder.

De pouca, ou nenhuma, tendência democrática.

Tinha os olhos quase fechados.

E pior: a visão curta.

A voz, ao contrário da aparência, soava firme.

Era ameaçadora, como dos que não têm argumento.

E era grave, como grave era a sua situação individual.

Tentou liderar isoladamente, excluindo tímidos superiores que a ele diziam amém.

Conquistou vitórias efêmeras.

Desceu mais rápido que subiu.

E sucumbiu a si próprio, afogado na arrogância dos que camuflam a própria fragilidade humana num bafejo de força.

Foi um sopro de tirania.

Foi.

Não fez vento forte.

O céu azul reluziu.

Aglutinou.

E com os guerreiros goytacazes quase ninguém pode.

Campos é deles.

Nosso campo, ou melhor, nosso estádio, sempre foi.

E ai de quem duvidar do ímpeto alvianil.

Não à toa nosso grito é: "Goyta, você é a minha vida; você é a minha história; você é o meu amor".

Quem tem sangue azul não morre na praia.

E não há ditadura, vento ou tempestade que nos impeça de voar.

E de nadar.

E de lutar por dias melhores.

Hoje, 13 de junho, é Dia de Santo Antônio.

Simbólico: esse casamento dos Goytacazes com seu povo é ancestral.

E eterno.

O Goyta voltou para onde nunca deveria ter saído: as mãos de seu povo.

O que virá, agora, é luta.

E dela nunca fugiremos.

Enquanto houver uma alma azul vibrante, o Goyta pulsará.

"Sou Goytacaz até morrer; nosso lema é vencer, vencer".