quarta-feira, 26 de julho de 2023

Pequeno atalho para o nada

Diga-me sobre sua você:
Degusta um descartável prazer?
Ou vê tijolos em construção?
Talvez esteja estrofe em evolução. 

Mas diga, diga sobre viver:
É sol nascente ao anoitecer?
Ou um pequeno atalho para o nada?
Vejo chuveiro, deduzo estrada.

Agora conte sobre crescer:
É poltrona de espinhos, posso crer?
Uma garrafa que transborda absurdo?
Acho que é concreto e espelho mudo.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Eu sei

Mal sabe você de hoje!
Vou te contar, viu!
Não tem aquela laje?
É o concreto do Brasil.

Mal sabe você de ontem!
Tia Dilma gaguejou.
E antes que aprontem,
O nosso futuro calejou.

Mal sabe você, espelho:
Teve gente que votou.
E a onda de vermelho,
Quase no fim, goleou. 

terça-feira, 11 de julho de 2023

Palavras rio afora

Um sorriso que se foi
Um olhar me abandonou
Se te encontrar, é um oi
Se teu sorriso findou

Laiá, laiá, meu coração
Traidor sem noção
Uma vida com você e eu
Fiquei na sua boca, seu

Não disfarça e volta
O que é reviravolta
É só o meu lugar
Pra você me olhar

terça-feira, 4 de julho de 2023

Toque de mágica

A paz tem cor de lã;
Vem na brisa, de manhã.
O perfume da primavera;
Você e a lua, quem dera!

Se não tiver paz amanhã;
Da brisa não serei fã.
Sem seu perfume,  já era;
Você sem mim, espera!

A paz só retorna guardiã;
E a brisa percebe, pagã.
Aí seu perfume esmera;
Eu, você e a lua: quimera!

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Sombreiro

Amor é raquete
É tênis e basquete
Amortece
Anoitece

Amor aquece
Não esquece
Tempera
Reverbera

Amor é Azeite
É deleite
É piston
É on

Amor sopra e arde
Nunca é tarde
É extintor
É ardor

Amor é ferro de passar
É golear
É dor
É até amor

Amor é sax e serrote
É um norte
É boliche e rádio
É estádio 

Amor é relógio e violão
É pousar sim e não
É antiquário
É armário 

Amor é dedo ao infinito
É feio e bonito
É luz que reluz
É força, conduz

Amor é cerveja
É alguém que me veja
Me enxerga
E me cega

Amor clama
E chama
E cama
Amor me ama

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Sol entre os trilhos

Mar de gente sem água;
Movimento de formiga.
Homem do escuro, buá;
Um filme que me intriga. 

E por falar nos cinemas;
A gente não viu, nem vê.
Me vi ao avesso, apenas;
Sol nos trilhos, você crê?

Creio nas festas juninas;
E indo sempre pra casa.
Quadrilhas são meninas;
Têm alma, fé, chão e asa.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

A outra

Fui idealizadora do amor, amante do pecado;
Moradora única de um prédio cinza desbotado.
Fiel, sempre fiel, à minha límpida solidão;
A motorista desgovernada do trem sem vagão.

Tomei litros de água, ao invés de cachaça;
Tenho um viço moribundo dentro da carcaça.
Corri léguas, estradas inteiras, e não caí;
Hoje é o que ontem não foi e amanhã não vi.

Não deixei um testamento nobre documentado;
Nem folhas em branco de um papel maltratado.
Se sorri aos remédios, foi a sua impressão;
Dei tchau às agulhas tolas por pura imersão.

Hemisfério

Que vento sul sou eu?
Que alvoroça folhagem?
Que atravessa o breu?
Que parece miragem?

Que proteção é você?
Que tipo de agasalho?
Que coberta de prazer?
Que tapete no assoalho?

Que temperatura temos?
Que tem no inverno só?
Que no verão queimemos?
Que o termômetro dá nó?

terça-feira, 13 de junho de 2023

Nem vento, nem tempestade

É uma canção de verão, um anjo;
Um clarear que não vejo.
Se você for sapato velho,
Sou a viagem, um elo.

É ser bem simples como a roupa nova;
Ter nos bailes da vida uma escola.
Ah, Maria Maria, meu universo é você.
Chama pra começo, meio e fim, pode ser?

Só minha felicidade não dá, não dá...
Os corações não são iguais cá ou lá.
Uma alma brasileira volta pra mim...
No sonho, nos corações psicodélicos, enfim...

Amar é chuva de prata?
É de volta pro futuro numa lata?
É vício, é Lumiar, é sensual?
E é tímida, é um voo livre casual?

À flor da pele vive uma lenda,
Que tem a força do amor na legenda.
E vamos seguindo o trem azul,
Com a estrela linda demais ao sul.

A paz é dona de um coração pirata;
É um show de rock´n roll que arrebata.
É até whisky à go-go na vitrola.
Tô aqui, moça da cantiga. Desenrola! 

terça-feira, 23 de maio de 2023

Giz verde

Hoje quero ser criança.
O que você me diz?
Sem medo, nem esperança;
Só quero saber do que fiz.

Meu cabelo, o vento balança;
Mas eu digo: "não, não, não".
Conhece desconfiança?
Traga afeto em sua mão.

Eu sou você a sós, agora.
Se consigo te decifrar;
Sou hoje, mundo afora.
Embarco, vem nos navegar?

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Sassaricando

A porta, já aberta, assistiu Moisés entrar.

Ele foi partido ao meio quando mirou a TV que fica perto da porta. Na tela, uma imagem em preto-e-branco de Rita Lee.

- Ela morreu? Vou chorar.

Moisés foi dividido ao meio por um mar de emoções.

Não vi, mas deduzo que lacrimejou.

Elis Regina adentrou pela mesma porta que Moisés, a essa altura já resiliente.

A xará da cantora que tirou a cantora da cadeia também se espantou.

- Rita Lee morreu?

A concordância veio no movimento para baixo da cabeça de dois ou três colegas de trabalho. Um movimento encadeado.

Lua, a personificação capilar Lee, não tinha o mesmo brilho nas madeixas rosa-choque.

Joice, outra homônima de cantora, estava de preto. Coincidência ou não, não dá pra cravar.

Ofegante, Thamires, nossa líder sereníssima, e, curiosamente, também de preto, teve o ar roubado por uma sinusite insistente. Um bafejo de quem não é ovelha negra. Muito pelo contrário. Na sua ausência física, é uníssono o coro: "agora só falta você".

A tarde chegou tarde. Com informações sobre vacina, carros acelerados, questionamentos educacionais, preparação de defensores civis e quetais.

Uma miscelânea. É nosso dia-a-dia pouco convencional aos normais. Uma espécie de lança-perfume atirado ao vento e mutante.

A gente trabalhou. E eu ouvi e vi Rita Lee no YouTube. Em último volume. Só silenciado quando ouvi, do meu lado, a polida e elegante colega Juliana cantarolando Rita Lee.

Bwana, Bwana, não sei cozinhar. E também não vejo uma mulher-robô. Foi uma cena tuti-fruti. Uma liberdade de expressão que só tem quem é Lee na excelência.

Parei pra tomar uma cerveja por Rita. Já estou, em plena terça, na quarta. Sonhando que ela tenha sete. Sete vidas. E, em todas as reencarnações, mulher!

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Se tentando

Precisei recorrer aos novos óculos para enxergar Lulu, aos 70.
Óculos são uma espécie de retrovisores... do que a gente já foi.
Pelo menos é o que vejo. Ou melhor, tento. E você também tenta.
Já vivi, mas quero escrever um texto sobre ele. E a gente, oi?

Ah, tô numa viagem aleatória aqui, de tentar misturar as coisas.
Uma crônica vadia, num dia vadio, numa noite sem qualquer placar.
Deu empate, dois empates. E a gente empatou, somos feito brisas.
Vou aqui enfileirar umas rimas, uma coisa de quem quer emplacar.

Não é apenas mais uma de amor
Em tempos modernos
Talvez seja toda forma de amor
Como o último romântico

De repente, Califórnia
Ou deixa isso pra lá
Se é seu aniversário
Um pro outro, já

Quando um certo alguém
Como uma onda
Tem a cura como ninguém
Certas coisas a gente sonda

Adivinha o quê, sereia?
Você me faz tão bem, tudo bem?
E a nossa casa, incendeia?
Assim caminha a humanidade, vem?

Estão aí, dezoito títulos de músicas em forma de poesia.
É uma crônica explícita? É. Mas também talvez não seria.
Não vi Lulu no Vímana, com Ritchie e Lobão e companhia.
Só soube. Ele era vocal e guitarra, mas podia ser bateria.

Vi Lulu Santos cabeludo, no Cassino do Chacrinha.
Lembro dele de camiseta e bermuda jeans, arrasando.
Ele cuidou bem da Scarlet Moon, e criou sua cria.
Lulu se assumiu Lulu, sempre corajoso e mitando.

É só um viva pra ti mesmo.
Nessa nossa vida a esmo.
A gente precisa viver.
E acender. E ascender.  

domingo, 30 de abril de 2023

Desejo proibido

Acho que sua vida é boa
Então não vou dizer
Que você ecoa
Mesmo sem querer 

Teu sorriso reluz
Teu corpo inflama
Mas a gente reduz
Porque você não chama

É só admiração? É
Fica subentendido
O que a gente quer
Um desejo proibido

Isso é quase um samba
Do alto de seu tamanco
Eu sou quase um bamba
Sem voz e de branco 

Fica só do meu lado
Não precisa nem falar
Eu tô aqui,  calado
Sonhando em te amar

Camim

Eu não sei o que está acontecendo
Talvez a bola branca na caçapa
Ou eu ainda sou você amanhecendo
Ouvindo acordes, pará, pápá

Tem quem ama, tem quem vai amar
É uma noite com gosto de chocolate
Você usa brinco de folhas e de mar
Eu uso uma blusa verde abacate 

Se eu for dizer,  não digo nunca
Se eu for falar,  por você tudo bem
Os teus passos me tatuam a nuca
Mas eu não fui e você não vem

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Cinco sentidos

Eu sou viciado em você.
Te ouço, até desgostosa.
Vejo sua risada. Por quê?
Te respeito, até ansiosa.

Eu sou carinho em você.
Te leio, até silenciosa.
Ouço o seu sono, o que?
Te desejo, até venenosa.

Eu sou o ninho em você.
Te apalpo, maravilhosa.
Sinto perfume de prazer?
Te degusto, luminosa. 

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Tinder

Diz aí: qual é seu nome?
Conta: tem quantos anos?
Onde mora, e o que come?
Quais são os seus planos?

Fica ou só quer namorar?
Prefere cerveja ou vinho?
Morar junto ou quer casar?
Sair em grupo ou sozinho?

Está nessa há muito tempo?
Espera ter aqui uma emoção?
Filhos, tem? E seu trampo?
Me encaixo na sua solidão?

terça-feira, 4 de abril de 2023

A fome do universo

Se a saudade for me procurar,
Vou estar onde a história nos deixou.
É bondade minha me amar,
Se não ferir o lastro que ficou. 

Quando a gente não se dedilhou,
Música soprada fez desafinar.
O relatório do tempo desandou,
A chuva estancou até o sol raiar.

Posso ter a fome do universo,
E não querer me alimentar.
Posso ter você aqui bem perto,
E não querer me encontrar.


Livro aberto

De três segredos a gente entende;
Dia pra viver, uma noite de matar.
Pode ser copo ou corpo, depende;
Se o sonho é realidade, a luz tem ar.

Uma placa decalca todo o amor;
Parece sentido, nossa existência.
Encarcerada na madeira, uma flor;
Se é chocolate, gosto de carência. 

Hoje recorto uma palavra quieta;
Te chamo em capela, até choro.
No retrovisor, a nuvem inquieta;
Se a coragem chegar, te devoro.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Calendário

Tô achando que hoje é segunda
A tarde é inútil, quase vagabunda
Tô achando que hoje é terça
E espero não ver quem me conheça 

Tô achando que hoje é quarta
Noite daquele futebol que me mata
Tô achando que hoje é quinta
Meio termo, até que alguém minta

Tô achando que hoje é sexta
Até na chuva, tem quem se ajeita
Tô achando que hoje é sábado
E a gente não fica lado a lado

Tô achando que hoje é domingo
Futebol de novo e um cochilo amigo
Tô achando que ainda é domingo
Não estou com você, nem comigo

Tô achando que hoje é todo dia
Eu ia te escrever; eu até ia aí, eu ia
Mas se hoje for mesmo todo dia
Na sombra é sol e amor é ventania

sexta-feira, 24 de março de 2023

Arquitetura

Decoro nossos dias com fervor e amor;
E com temperos de amizade e frescor.
A gente pode até ouvir e fumar um reggae;
E posso te seguir, desde que você me cegue.

Vender um sanduíche na praia é natural;
Se tiver nome de banda, é homenagem surreal.
Mas você tem terra, tijolos e cimento;
Enquanto eu, aqui, vou confeitando o momento.

Tem uma concha bem ali no teto, eu vi.
O seu olhar descalibrado eu, só, li e reli.
Esquece paredes e o teto e a multidão, meu bem.
Vem só desenhar um dia e uma noite, vem.