segunda-feira, 21 de março de 2022

Cinco de março

Hoje é o dia em que a bola bate nas duas traves. 

E entra devagar, marcando posição. 

Tem Fla x Flu, não à toa. 

Oposto é não pingar colírio e ver com óculos escuros a vida maturar. 

Lembrar de Zé Gilson e Dona Zilá na ida para Governador Valadares. 

Envelhecer parece brincadeira de entortar pneus e avistar barrancos tão de perto que é preciso recuar o cotovelo. 

Tudo vem à mente dirigindo numa estrada sonorizada por Raul Seixas e, na sequência, Rita Lee. 


Ovelha negra? 

Só se quiser viajar pelo universo erguendo Jardins da Babilônia. 

Sempre! 

Beijo na bochecha de quem sabe, como ninguém, guardar segredos de olhos verdes a sete portas. 

E ainda afogar todas as chaves em sedentas goladas de Salinas acompanhadas de filé à milanesa. 

Vida que segue, meu velho! 

E bola no círculo central porque vai começar tudo outra vez, tal qual Gonzaguinha prometeu. 

Você nasceu há 10 mil anos atrás! 

Quanto a mim, só estou te imitando. 

De novo.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Evite filas

Se a gente fosse contar
Não seria tudo nunca
Teria gargalhadas e mar
E vários arrepios na nuca

Se a gente fosse chorar
Não era qualquer lágrima
Teria complacente olhar
E texto, linhas e página

Se a gente fosse avião
Não era voo ou pouso
Teria só ar de intuição
E é poltrona, repouso 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Lente de contato

Da janela vejo o mundo
Pequeno recorte de absurdo
Mais um gole de cerveja
Pedindo que alguém me veja

Passa um homem de bigode e chapéu
Com as cicatrizes da vida e perto do céu
Desfila uma mulher de salto alto
E a criança com olhar de anjo e pés no asfalto

Carros roncam o motor
A árvore estanca o calor
O vaivém não tem tradução
É o precipício da evolução


segunda-feira, 7 de março de 2022

Contagem regressiva

Se só me restar esse dia
Vou até o mar, revê-lo
E sem contar que iria
Apenas para admirá-lo

Se só me restar esse dia
Vou construir castelos
Daqueles de fotografia
Onde moram nossos elos

Se só me restar esse dia
Não vou pensar em nada
Quero conchas, a areia
E uma boa gargalhada

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Insanos somos todos nós

Quem diria! Nosso absurdo mundo em horário nobre.
Entretenimento burguês, indignação de pobre.
Aqui, de riqueza no mar e na terra.
Vergonha nacional que nos enterra.

Quem diria! No lugar onde tem dois carnavais!
É também onde morre gente em canaviais.
Aqui, que tem o verão da família.
Aqui, logo aqui, quem diria, quem diria!

Se tá calor, é praia e trio elétrico!
Ao doente, nem original ou genérico.
Quer casa? Cadastra que tem.
Quer ir de ônibus? Por um real vai e vem.

É na terra da festa e fartura
Que brota nossa desventura.
É na confiança do sempre afável
Que se cai e escorre no chão, miserável.

Abriram a cortina, desnudaram nossa veia.
É gente como a gente, amarrada em teia.
Com a mordaça deles, calaram nossa voz.
Insanos, insanos mesmo, somos todos nós. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

A única incerteza

Pouco ou muito,
Todo mundo já sofreu.
E no auge da dor,
A gente acha até que morreu.

Morremos ou vivemos a cada dia,
Em cada despedida ou reencontro?
Reconstruímos tristeza ou alegria?
Somos só um ou pedaço do outro?

Os filhos são nossa extensão.
Prorrogam a vida ou a morte?
E os pais, afinal, quem são:
Teoria científica ou pura sorte?

Ah, temos amigos e irmãos.
Acaso, prêmios ou dádivas?
Temos felicidade e gratidão;
Fé, certezas e dúvidas?

E nesse emaranhado estamos.
E seguimos nos matando.
Rimos e choramos;
Nos iludindo, nos amando.


sábado, 5 de fevereiro de 2022

Café e convites de casamento

Conheço Eduardo e Mônica.

Trabalho com eles.

São música.

São filme.

Às vezes, opostos.

Quase sempre, um só.

Torcem para um time de três cores.

Entre essas cores, o branco da paz.

O branco do arroz.

O branco de Deus, de João de Deus.

São Fluminense, no singular.

A gente também é, no plural, por nascimento.

E vi nascer esse laço.

Vi quieto, observando um olhar aqui, uma admiração ali, uma comemoração de gol acolá.

Soube, de longe, que esses dois jovens e alegres tricolores uniram sorrisos.

E rir é com eles.

Uma metade extremamente bem-humorada. 

A outra, tão debochada quanto a vida.

É bacana ver um casal onde um foca e o outro posa.

E invertem as posições, como Assis e Washington, o casal 20 inesquecível do Flusão.

Como eles, a tabela é pelo alto, com a cabeça.

Que esses pequenos gigantes macaenses sigam rindo da vida e goleando o que não deveria existir.

Que sejam campeões no xadrez que é a convivência a dois.

A praia é o mundo deles.

Com toda madrugada, com todo sol nascente, com toda dose de pecado.

São fãs de refrigerante, cerveja, boa comida e viagens.

Desejo, daqui, café.

Por ser energia e vigor.

E convites de casamento.

Por ter a juvenil essência de quando fizeram - e compartilharam - o deles.

Ah, sim, voltando lá no início do texto, e, talvez, de tudo: "quem um dia irá dizer que não existe razão pras coisas feitas pelo coração?".

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Eternamente menino

Guardo uma certeza: a vida tem toque divino
Há quem só viva; há quem seja sempre menino
Seja força da natureza, ou até mesmo Deus
Existem aqueles que são simplesmente seus

É uma gente de sorriso largo, mesmo triste
De alma ampla, gigante, da maior que existe
Que tem passos lentos, enxerga o futuro ali
Tanta leveza que nunca encontrei onde já li

Quem tem amigo assim sabe o tesouro que é
Sabe que ele vê a vida pelos óculos da fé
É uma crença eterna no tempo, na humanidade
É música, mar, sol, cerveja e simplicidade

sábado, 22 de janeiro de 2022

Maestro São Sebastião

Queria a letra de Renato
O vigor de Humberto
Os olhos de Chico
As tatuagens de Tico

A mineirice de Milton
O piano de Tom
A bossa de João
O skate de Chorão

A voz de Elis
A maquiagem do Kiss
A boemia de Cazuza
Queria, mesmo, ser Elza

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

De joelhos

Na missa do dia primeiro
Não sei se vou rezar
Talvez ter um ano inteiro
Pra ver a quem ajoelhar

É culto importante, eu sei
Marca início, fim e meio
Nessa prece fui e voltei
Acordei, tanto devaneio

Decidi que não vou orar
Quero o altar e o vinho
Quero ser padre, abraçar
Sorver o mundo, moinho


Vinte, vinte e mais dois

Olá: eu sou o ano novo
Pés, mãos e até cabelo
Sou prato, picanha, ovo
Sou mais, menos e elo

Sou porteira, gado e chão
Reta, seta e a contramão
Dia de sol, chuva em vão
A corda frouxa do violão

Sou planeta, piscina, mar
Pés na lua, dor de amar
Sou a vinda e a estadia
Norte, sul e a vida vadia

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Transformação

Eu acho muito bom
Quando a pessoa é
Floral no certo tom
E luz, luminária e fé

Eu acho a vida ouro
Quando a gente quer
Um desafio certeiro
E você, e o que quiser

Eu te vejo olimpíada
Quando não retalha
Flecha em disparada
Musa-mulher medalha

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Onde o rio beija o mar

O tempo, esse espasmo
Parece até que a década
Estacionou, um marasmo
Rejeitou subir a escada

Para Renato, da Legião,
Eu era lobisomem juvenil.
Um carimbado quarentão
Admirando o céu de anil.

Crianças, vieram muitas
E poderiam ser até mais
Sorrisos, lágrimas, tintas
Tão longe e perto demais

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pra PG

A gente mal ri da vida,
E ensaiamos versos.
Essa estrada desmedida,
Brincadeira de inversos.

Um mero sopro qualquer
Guia nossa terna manhã.
Aquele abraço de mulher
Me diz: homem, sou sua fã.

Tenho aqui um chapéu;
E batom, e você em mim.
Um molejo, riso, um véu...
Teatro, aplauso e... fim.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Dezesseis acordes

 Um passo certeiro e o olhar cravejado de precisão, tal qual falcão, são o bastante para ajeitar, carinhosamente, o piso quebrado na quina do primeiro degrau de casa. Não é para evitar queda dele. Sabe, do alto de sua experiência adolescente, que aquilo representa perigo. E possível corte. Corte de pé. E daquele que sempre lhe ensinou como caminhar. É pelo pai xará, não rara coincidência, que toma a providência. Se porta como filho zeloso, sabedor, do fundo d´alma, que os papéis se inverteram. Ah, e como isso mudou. Não é mais o pimpolho. Agora, e pra sempre, tem o caminho e a chave da porta da frente. 

Balança a cabeleira, solta ou presa. Importa pouco onde os fios se posicionam. Ele intui onde estão, amarrados ou ao vento. É a representatividade dele mesmo: menino-moleque, adulto-coragem. As mãos mantém a firmeza necessária. A fala denuncia o ar jovial, o sorriso quase infantil. A meia-idade na carteira, a vivência certeira de quem ainda não viu tudo, mas antevê. E a visão está lá, no púlpito e no altar. No sacro e profano, sem profanar. São os dedos que conduzem as cordas. E elas não arranham. Não ultrapassam o limite do convencimento. Qualquer que seja. Onde esteja. E para quem veja. 

No jogo de cintura matreiro, o drible é certo. O gol é questão de tempo. E o cronômetro é seu aliado. O abraço incontido, a efusividade dos hormônios... Tudo isso passa. Ele sabe que passa. O que fica é a alegria saltitante. Sempre. Mesmo no olhar mais profundo, no acorde mudo. Na interrogação da pausa, na persistência da batida perfeita. Pelas digitais ecoam múltiplas emoções. Algumas administráveis; outras, não. O que não tem conversa, nem titubear de ação, é a velocidade com que ajeita o piso quebrado na quina do primeiro degrau de casa. Vai lá, garoto! A escadaria da felicidade te espera. E te merece.

Sobre 12/12/2012

Dormi sabendo que teria de levar o carro hoje cedo na concessionária por conta de uma pane no conjunto de setas identificada semana passada. Até que um pequeno parafuso colocado estrategicamente para estancar o problema "voasse longe", tudo estava sob controle. Para que o pisca-alerta não ficasse ativado a noite inteira, duas chaves foram fincadas ao redor dele, presas a uma argola, ligada a uma cordinha amarrada ao volante. A bateria não descarregaria. 

Sono tranquilo? Longe de mim. Talvez estimulados por duas Originais bem geladas e uma pizza gordurosa de margherita, pesadelos me rondaram. No mais assombroso deles, inventei meu próprio meio de transporte: um macacão plástico amarelo, onde cabiam duas pessoas, movido a 100 ml de Skol e acionado por uma vareta branca nas costas. A esquisitice se movia com os passageiros sentados em uma plataforma de madeira com duas rodinhas. Parecia um skate.

Quando um feixe de luz solar dos anunciados 40 graus para esta quarta-feira em Campos invadiu a cama, pulei. Eram 7h15, mais ou menos. Só então reparei que meu telefone tocou duas vezes às 23h22. Impossível retornar ligação de número restrito. Banho rápido, duas goladas em um refresco de tangerina e já estava eu dentro do veículo, desatando o nó. Foi rápido. Demorado seria o trajeto até a Fiat com as luzes piscando o tempo inteiro pelo infernal trânsito local.

Segui devagar, como manda a prudência nesses casos. Até que na esquina de Rua Saldanha Marinho com Ouvidor avistei aquela que poderia ser a explicação irracional, inesperada e inusitada para meu sonho de Professor Pardal. Em pé, um sujeito com o corpo pintado tipo o "Freddie Mercury Prateado", do Pânico na TV. Trajando um casaco feito de... tampas de latas de refrigerante e/ou cerveja. Sinal verde, não tive tempo de fotografá-lo. 

Precisei parar no Itaú para fazer uma transferência bancária. Em dois caixas eletrônicos não havia papel para imprimir o comprovante. Só consegui efetuar a transação no terceiro. Esquisito! Cheguei, finalmente ao destino. Como sempre fui atendido de forma atenciosa por uma loira simpática com quem trato os assuntos do veículo. Já no trabalho fui recepcionado por uma música: "Alô, alô Marciano", com Elis Regina. Sabem o que isso tudo quer dizer? Nada!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Depois da urna

 Ok, vocês ganharam
Mas não me rendo, não
É resultado do que plantaram
Não tem amor nem alma, não

Ok, vocês chegaram
Mas não contem comigo, não
É só o que queriam, vislumbravam
Não tem charme nem chama, não

Ok, vocês assumiram
Mas não me contento, não
É só faca cega, cantaram
Não tem cântico, ou não

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Caminhar

Como descobri sabe sobre amar?
Quando ouvi o peito assoviar.
Sem relógio, só cumplicidade.
Que dura o tempo da eternidade.

A gente desliza a vida devagar.
Não marca hora certa pra chegar.
E nesse nó inquebrável do laço,
Espera a vez de um outro abraço.

Quando você vai sorrir, eu sei.
Se vai rir de si mesmo, tentei.
Quando vai dormir, eu que sonhei.
E se tiver teu orgulho, acertei.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Descalço

Que vontade de catar o violão,
E sair por aí sem destino certo.
Levando no bolso só o coração,
O passo errante e o riso incerto.

Sem plano, sem roteiro, sem chão,
Sem máscara, sem aço, sem laço.
Beijando o vento na contramão;
Berrando, driblando o cansaço.

Rabiscar na parede, contar história;
Sem cansar, sem querer, sem penar.
Ser amigo do tempo e da memória,
E parar só quando a alma aquietar.

Obs. - Parceria com Marcelo Benjá

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Didi, Floyd, João Pedro, Miguel e Marielle

Didi não se embrenhou na rede, não.

Pediu, pegou e se apossou da bola depois.

Veio quieto, com ela embaixo do braço, até o meio da quadra.

Impassível. Imponente. Príncipe.

Disse para Floyd: "Protege a Marielle, eles são covardes".

Ficou claro no primeiro ataque adversário, em que um atacante raivoso, deputado fortão do PSL, empurrou a goleira com a mão direita, impedindo-a de alcançar a bola. E comemorou o gol rindo, fazendo gesto de arminha.

Didi olhou fixo para João Pedro e Miguel.

Apontou as extremidades da quadra.

Genial, definiu ali a tática de jogo.

Ficou mais recuado, ajudando Floyd a preservar Marielle.

E liberou os garotos.

Foi um massacre.

Três de João Pedro, que só sorriu.

Dois de Miguel, serelepe. Acenou para as câmeras e a gente da TV, que filmavam tudo ali. Expurgou: "Mãe, tô feliz".

Didi, de longe, fez o sexto.

E Marielle, se livrando de um miliciano que a mirava, num chute espetacular de sua área, fechou o 7x1.

Os negros, ah, eles devolveram nossa dignidade. Tinha de ser.

E será.