sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Atitude x Altitude

 Renan chega cedo, cedíssimo pra uma quarta-feira de Cinzas. 

Às 7h10 ele atravessa a Beira-Valão segurando, e fazendo força, a bolsa azul no ombro esquerdo. 

_ Chegamos juntos?

_ É.

_ Fez boa viagem?

_ Sim. 

Dirigi um pouco até nossa casa.

_ Será que o Botafogo vai de Villalba e Kadir no ataque hoje?

_ Eu iria.

Estacionei.

Cochilo. 

Peço almoço.

Cochilo.

Quarta de Cinzas sendo as cinzas de quarta.

_ Vamos buscar Tássio em Grussaí?

_ Sim.

Abasteço o carro. Calibro os pneus. 

Pego a estrada. 

_ Kadir e Villalba? Não acredito nessa escalação. 

_ Eu iria.

Estaciono. Tássio entra depois de degustar um patê.

_ Vão querer lanchar?

Silêncio. 

Paro no estacionamento do SuperBom do Turf-Clube. 

_ Vou ficar no carro, diz Tássio. 

Compramos o que era necessário: guloseimas, detergente, papel higiênico e guloseimas.

Tássio abriu mão do hambúrguer e subiu cravando uma colher de sopa no pote de Panna Cotta.

Enchi meu copo térmico de suco de uva com gelo.

Ganhei um sanduíche com dois ovos e carne.

Devorei.

Sala, eu e Renan.

Botafogo e Nacional. O River Plate de Potosí. 

O River Plate boliviano.

O time deles, uniforme branco com faixa vermelha.

Um traje espalhafatoso. 

O Botafogo de preto. 

Sem Villalba. Sem Kadir. 

Pressão, bola rápida. Altitude. Tudo contra.

Nacional, sem torcida, aguerrido. 

Limitado, mas tentando.

Matheus Martins perde um gol feito.

Volta do segundo tempo... gol do Nacional. 

De peixinho, logo, incoerente. 

Montoro manda na trave.

O Nacional manda na rede. Nulo pelo VAR.

Fechou 1x0 Nacional. 

Dormi mal.

Sonhei com a volta. 

Peguei BR. Macaé,  volto de férias. 

Pus uma calça espalhafatosa.

Na camisa, Zeca Pagodinho.

Junto, a frase: "traz a saideira".

Meti o dedo de entrada. Cheguei.

Tinha um conluio carnal marcado.

Tinha. 

Perdi.

O Botafogo, também. 

Trabalhei o que foi possível. 

Meti o dedo de saída. Saí.

Bebi uma, duas, três...

_ Traz a saideira, traz?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Cruz de Malta

Jean Carlos ajeitou a bola.

Não tomou muita distância. 

Perna esquerda, de longe... gol da Chapecoense.

Último lance, praticamente. 

De novo o Vasco sai na frente e não vence em casa.

Dormi.

Fábio Porchat liga pro Diniz.

No primeiro corredor do SuperBom da Alberto Torres, fim de manhã, movimento grande, desanca o técnico. 

"Diniz, eu preciso de chocolates e não tô na TPM".

"Diniz, me ouve: eu prefiro casar com a Rita Cadillac em Fernando de Noronha, em comunhão de bens, pro Vasco não ser rebaixado de novo".

"Diniz, eu tô tão louco que a Rita vai aparecer aqui junto com os Mamonas Assassinas pra roubar prateleiras".

"Não desliga, é verdade...  Diniz, já me passaram a mão na bunda, e não foi na bunda da Rita, e não comi ninguém..."

"Diniz...."

O filho da puta desligou. 

Acordei!

Jean Carlos abraça a Chapecoense inteira em todos os portais.

Cochilo depois do almoço azedado pelo Globo Esporte. 

Quem aparece, cabelo arredondado, chamando pra um rolê Macaé/Campos?

Ayrton Senna.

Tentei frear o sonho antes que Eduardo Paes decida por algum dáblio regional para seu vice (entre Welberth e Wladimir). 

Penso nas crianças, na tragédia de Itumbiara, e no conservadorismo bolsonarista. 

Nem lembro que é Carnaval. 

E o Vasco perde para o Bahia, gol de Luciano Juba. Não sei, do nome dele, o que é fantasia. 

Tudo é fantasia. 

Sonolento estou, de novo.

"Diniz, pelo amor...hj é sábado de Momo e o jogo é em São Januário, contra o Volta Redonda...".

"Se não classificar, Diniz, vou arrancar os cabelos do Felca. Fio por fio, de São Januário à CSN".

Pelo amor...

Acordei. 

A garrafinha de água ao lado da cama. 

Pego o celular. 

O Face me lembra: foto com pegadas na areia.

Vou no Instagram. 

Página principal: Fábio Porchat ligando pro Diniz.

Tullip

Acho que vi você hoje bem aqui
Palavra nua, num silêncio em si
Encontrei no vácuo do corredor
Mesa bem ao lado, gelo e calor

Nos óculos escuros, Chico e Tom
Na habilidade, até na falta de dom
No carro parado e na contramão
No tornozelo e perto do coração 

Vi você no WhatsApp, e no meme
Na prato e na bandeja mambembe
Te vi no vento, sol e na tempestade
É vida, colchão macio e intensidade


sábado, 3 de janeiro de 2026

O velho novo disco

Ainda tenho cinco anos
Um tempo de planos
Amar, ler, chorar
Rir, dançar e até orar

Ainda tenho cinco anos
À deixar os desenganos
Cantar, nadar, caminhar
Plantar... compartilhar 

Ainda tenho cinco anos
Serão os anos dos anos
Sentar, olhar no olhar
Tocar, arrepiar e abraçar